Eu não era bom jogador, não terminava quase nenhum jogo. Mas lia até morrer. Assinava revistas, comprava, lia tudo, pouco importando que eu teria acesso a 10% de tudo aquilo, quando muito. Era o meu jeito de ser hardcore. Não via graça nos “clássicos obrigatórios”, curtia terminar pela trigésima vez Forgotten Worlds no co-op e era crucificado quando pegava um Sword of Sodan na locadora “só pra ver qual é”. Eu não fazia questão de reconhecimento, mas até me esforçava para ser levado a sério – tinha até a carteirinha do clube.
Segundo as regras nem sempre implícitas de convívio geral, porém, eu não era true hardcore. Eu mais jogava futebol do que videogame, o que era e continua sendo pecado. Por um tempo fui mais pescador hardcore do que gamer hardcore. Eu era, enfim, o “hardcore gamer” mais inválido que qualquer Sindicato dos Jogadores Hardcore poderia querer.
Os games mudaram, a indústria mudou, mas a sociedade ainda usa um firmware atrasado. A tendência de quantificar o hardcore continua em alta. Somos um nicho, estamos nos radares das grandes marcas, somos identificados como formadores de opinião. Os caras que compram um mouse por R$ 300 e uma placa de vídeo por valores que é bom não revelar agora – podem existir mães, namoradas e noivas assistindo. Ok, ficamos lisonjeados pela importância enquanto público-alvo.
Mas hardcore gamer, na visão do mercado (ou da sociedade?), é simplesmente quem joga X horas por semana ou gasta X reais por mês. Concepção estúpida, mas é a vida, as pesquisas de público precisam ser padronizadas de alguma maneira. O que não impede que elas continuem sendo estúpidas.
Ser hardcore gamer, até onde eu quero acreditar, não é jogar “games hardcore”, não é passar X horas por semana jogando, não é ter 49 troféus de platina no PS3. Hardcore gamer não é pose, é atitude [entra vinheta do achocolatado radical].
Seria esse amigo um caso do neo-hardcore? Pois ele se parece com alguns outros amigos na faixa dos 30 anos por aqui. Temos aquele que nem liga mais o Xbox 360, mas é mestre em Infinity Blade, e logo vai ser gênio em Jetpack Joyride. Ou aquele que não vai comprar Modern Warfare 3 nem Battlefield 3, mas destrói no FIFA online e a cada semana vem mostrar dois ou três jogos fodões de iPad (essa plataforma de jogos que ainda não é plataforma de jogos porque não passou no teste hardcore, certo?). O terceiro amigo é aquele que só compra dois ou três jogos “hardcore” por ano, mas discursa como ninguém sobre a importância dos
shooters na sociedade atual.
Na escala hardcore que rege o mundo, e que conta ainda com aquele outro amigo que trocou um semestre de Engenharia pela supremacia em Gunbound, onde esses neo-hardcore se encaixam? São menos dignos, mais alienados? Ou só diferentes? Vou chamar a polícia porque eles não vão comprar o novo Zelda.
Ser hardcore, seja “neo” ou “tru”, é ir além das aparências. É se dedicar a algo além do comportamento comum, trazendo um pouco de senso crítico no embalo. Não importa a quantidade, mas a qualidade. E, de preferência, que seja porque você acredita naquilo, e não porque precisa de um rótulo para impressionar as gatas dormir tranquilo.
por JeanFoxDiee, fonte: Kotaku
Via GameVicio




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